sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Deixa, deixa, deixa eu dizer..."

O ambiente escolar sempre foi um local de grande aprendizado para mim, quando aluna e, principalmente, quando não.
As disciplinas de licenciatura sempre nos oferecem essa oportunidade que, para muitos é a parte mais chata do curso. Eu, algumas vezes, mesmo não muito motivada inicialmente, fiz questão de participar da rotina da escola as 20h semestrais exigidas.
O professor sugeriu que não escolhêssemos a escola pelo critério “proximidade da minha casa”... ano passado escolhi, e esse ano decidi fazer o mesmo. O detalhe é que a escola é tão próxima da minha casa quanto da favela São Remo.
Já no ano passado me emocionei com a história das crianças que tinham as casas invadidas à noite, pela polícia, e, pela manhã, assustadas e sem terem dormido direito, iam para a escola.
Elas sempre foram tão carinhosas comigo e com qualquer pessoa que lhes oferecessem atenção!
Hoje, especialmente, adorei reencontrá-las, mas o que me marcou mais foi o desabafo de uma mãe... a mãe de uma garotinha de 9 anos com necessidades especiais. Ela me disse que havia recebido cerca de R$ 4,000 em doações para a filha e foi assaltada quando chegava em casa. A alegria de uma mulher ao receber uma ajuda para a filha cujo gasto mensal, só de fraldas, é de um salário mínimo, foi interrompida por uma arma em sua cabeça. E aquela história de que “eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando” é mais triste do que se pode imaginar. Essa mulher tem de ficar o dia todo com a filha e não pode trabalhar, ainda assim me disse que até poderia levá-la para a rua e pedir esmolas, mas não fazia isso para não expô-la. Isso é que é dignidade.
Isso me fez pensar na pergunta que a professora de Introdução aos estudos da Educação nos fez essa semana: “se você não tivesse dinheiro nem para se alimentar, recolheria recicláveis ou assaltaria?” e ela mesmo respondeu: “eu já me fiz essa pergunta, eu assaltaria! Não teria tamanha dignidade para andar na rua recolhendo materiais recicláveis!”
Muitos não teriam, muitos não têm...
No final da conversa, a mãe da garota ainda me agradeceu por tê-la ouvido, e eu saí da escola junto com ela, porque já tinha aprendido demais em uma só manhã. Cheguei em casa, sentei e chorei... chorei de tristeza, chorei de fraqueza, chorei de indignação!
Muitas coisas acontecem para além do muro da famosa Universidade de São Paulo e muitos nem sabem e nem querem saber.
Um nó na garganta e um sentimento de impotência... é o que tem pra hoje!